A banalização do crime

Algumas vezes me perguntei uma frase, que farei no fim do texto para você, e sempre eu cheguei a conclusão que isso deve ser natural ao comportamento humano.

Não, não falo sobre matar ou algum outro crime hediondo, refiro-me a um crime que deve ser se não o mais antigo um dos mais antigos da humanidade: o roubo. Todos temos a percepção de que o roubo envolve uma pessoa, normalmente armada, e uma outra pessoa ou patrimônio da qual é levada uma quantidade monetária em espécie ou em um bem de valor propriamente dito.

Hoje no entanto temos acesso ao roubo de maneira muito mais simples e fácil de realizar: O roubo de produção artística. Veja só, no caminho do trabalho até a praça Rui Barbosa para pegar o ônibus (maldito!) e voltar pra casa eu passo por uns quatro ou cinco cidadãos vendendo “CD e DVD, três por R$10,00!”, sem falar nas lojas de eletrônicos aonde está de maneira clara e explícita escrito “Desbloqueamos seu PS2 e receba 10 jogos”.

Concordo plenamente que o acesso a toda essa produção artísitca, seja ela música, filme ou até mesmo um jogo eletrônico é um abuso com relação ao preço. Toda vez que compro um CD ou DVD eu peso o que mais eu poderia ter feito com todo aquele dinheiro que acabei de investir, mas ainda assim, prefiro adquirir pelos métodos lícitos (até aonde sei) do que dos que são descaradamente ilícitos. Mas, eu faço parte de uma miserável parcela da população, pois que atire a primeira pedra quem nunca fez o download de uma música que claramente era uma violação de direitos autorais!

Acabo de ouvir, e me inspirei por isso, o comentários de dois colegas falando sobre DVDs piratas:

- Imagine que vou pagar R$30,00 num filme! Assalto!

- Verdade, pega o pirata na internet que sai de graça ainda!

- Pô, deixo baixando a noite toda…

Que é isso? Banalizamos o roubo? Por que isso nos faz menos criminosos do que, digamos, o “mano carçudo” que me roubou o celular ano passado? Ah, claro, estamos roubando uma coisa abstrata! Um filme, uma música, um livro! Pro inferno com esta concepção!

DVDs
Creative Commons License photo credit: tk-link

Vivemos numa sociedade aonde quem age corretamente é considerado otário pois não tira vantagem sempre que possível; Aonde querer ser correto faz com que você se sinta ligeiramente envergonhado, como se você, a pessoa correta, estivesse cometendo um crime. Perdemos a concepção do que é certo e o que é errado!

Não sei dizer se em algum ponto a pirataria de qualquer coisa fazia sentido, seja ela porque precisávamos de algo e não tínhamos condições, e pouco me importa na verdade. O que eu me incomodo é ver uma pessoa que tem condições financeiras para trocar de carro todo ano e ainda assim faz questão de adquirir produtos piratas.

Por isso eu me pergunto algumas vezes e jogo a pergunta no ar também: “Quando foi que certo e errado mudaram de significado?”



4 comentários em “A banalização do crime”


Anthuan
28/05/2008 14:23

É ilegal porque é contra as regras. Mas se ninguém segue as regras, então é porque o que está errado é a regra, e não o comportamento das pessoas.



paulo ruthes
28/05/2008 14:46

Pelo seu modo de dizer então você entende que regras de direito autoral estão erradas?

Sou totalmente a favor da liberdade de escolha para produção de cultura (veja que esse foi meu enfoque) e seu modo de distribuição. O Ibrahim vende o livro dele mas você pode baixá-lo gratuitamente do site inclusive modificá-lo (by-nc-sa) mas essa foi uma escolha dele.

Pela sua frase, a partir do momento que jogamos regras de direitos autorais fora, uma pessoa que quer ter direito sobre a execução de sua obra passa a ser a pessoa errado, portanto repito, quando foi que o certo e o errado mudaram de definição?



Elle
28/05/2008 16:34

Não acho que o Anthuan tenha dito no sentido de “vamos todos usufruir das coisas sem dar o crédito ao artista” (no caso). Mas eu concordo com ele no sentido de que as regras de direitos autorais são antiquadas e precisam ser revistas. E no fim das contas, não é bem o artista que perde… Nem ganha, se você comprar o orginal.

Porque é fácil dizer que os direitos autorias e impostos devem ser respeitados quando se tem poder aquisitivo pra isso. Agora, quem não tem condições de pagar 80 reais num CD não pode ser fã? Não pode ouvir a música da banda que quer? Ela tem o mesmo direito a cultura, arte e lazer que qualquer outra que ganhe mais dinheiro.

Quando foi que os direitos dos cidadãos de acesso a essas coisas foram nivelados pelo salário?

No fim os dois lados estão errados… Então aqui cabe a difinição de errado e mais errado ainda.



Thássius V.
07/06/2008 22:51

Estamos vivenciando uma revolução silenciosa. Lentamente migrou-se da loja de músicas para o iTunes. É complicado formar uma opinião sobre algo que corre, e ainda vai correr por muitos anos.

Mas tenho claro para mim que o download de mp3s e afins é uma resposta da sociedade a essa indústria que cobra caríssimo pelo acesso à cultura. Pode até ser ilegal, mas legítimo também é.


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